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Inteligência Artificial prevê. Programação Linear decide (parte 2)

michel3540
14 de ago.
5 min de leitura

Atualizado: 15 de ago.

A Análise de Sensibilidade responde a uma pergunta que todo gestor deveria fazer.

Você é um incorporador imobiliário.

Seu modelo de Machine Learning, treinado com o histórico de vendas da empresa, estima que uma casa poderá ser vendida por R$ 2,475 milhões.

Excelente.

Agora vem a segunda etapa.

Você precisa decidir quanto investir na reforma antes de colocar o imóvel à venda.

O orçamento disponível é de R$ 275 mil.

Existem duas possibilidades principais:

  • reforma da cozinha;

  • paisagismo.

Seu modelo estima que cada R$ 1 mil investido na cozinha acrescentará R$ 1,80 mil ao valor esperado de venda.

No paisagismo, o acréscimo estimado é de R$ 1,20 mil para cada R$ 1 mil investido.

A conclusão parece óbvia:

Invista todo o orçamento na cozinha.

E é exatamente isso que o modelo de otimização recomenda.

Mas então o diretor faz uma pergunta:

“E se essas estimativas estiverem erradas?”

Silêncio.

Porque agora surge uma questão diferente:

Até que ponto a decisão ótima continua sendo ótima quando os dados utilizados pelo modelo mudam?

É aqui que entra a Análise de Sensibilidade.

O problema da otimização quando os dados não são perfeitos

No artigo anterior, vimos uma ideia fundamental:

Machine Learning prevê. Programação Linear decide.

Mas existe uma terceira questão.

A previsão do Machine Learning não é uma verdade absoluta.

Se o modelo apresentou um RMSE de R$ 121 mil, isso significa que suas previsões apresentam, em média, um erro dessa ordem. Portanto, o preço de venda previsto em R$ 2,475 milhões não deve ser interpretado como um número exato.

Existe incerteza. E essa incerteza pode chegar à etapa seguinte do processo.

Previsão → Otimização → Decisão

O problema é que uma decisão ótima calculada com determinados parâmetros pode deixar de ser ótima quando esses parâmetros mudam.

Por isso, não basta perguntar:  “Qual é a solução ótima?”

É preciso perguntar também: “Quão sensível é essa solução aos erros nas estimativas?”

O problema matematicamente

Imagine que o incorporador tenha R$ 275 mil disponíveis para investir na reforma.

Definimos:

x = valor investido na cozinha, em milhares de reais

y = valor investido no paisagismo, em milhares de reais

O modelo estima os seguintes retornos adicionais:

  • cozinha: R$ 1,80 de retorno para cada R$ 1 investido;

  • paisagismo: R$ 1,20 de retorno para cada R$ 1 investido.

Como estamos trabalhando em milhares de reais, podemos escrever o lucro adicional como:

L = 0,80x + 0,20y

Porque, para cada R$ 1 investido:

  • a cozinha acrescenta R$ 1,80 ao imóvel, mas custa R$ 1,00;

  • portanto, o lucro adicional é R$ 0,80.

No paisagismo:

  • retorno = R$ 1,20, custo = R$ 1,00;

  • lucro adicional = R$ 0,20.

Temos ainda a restrição orçamentária:

x+y < 275 e x, y > 0

Portanto, o problema de Programação Linear é:


max L= 0,80x + 0,20y

sujeito a:

x + y ≤ 275 e   x ≥ 0, y≥ 0

A solução é obviamente:

x=275, y=0

Ou seja:

O modelo recomenda investir os R$ 275 mil integralmente na cozinha.

O lucro adicional esperado é: 0,80 x 275= R$ 220 mil

Até aqui, tudo parece resolvido.

Mas não está.

E se a estimativa da cozinha estiver errada?

Suponha agora que o modelo de Machine Learning tenha superestimado o retorno da reforma da cozinha.

O coeficiente utilizado na otimização foi  0,80, mas talvez o retorno real seja menor.

Poderia ser 0,70,  0,50, ou até 0,20.

A pergunta passa a ser:

Em que ponto a decisão de colocar todo o dinheiro na cozinha deixa de ser ótima?

Análise de Sensibilidade

Análise de Sensibilidade  verifica como a solução ótima reage a alterações nos parâmetros do modelo. No nosso exemplo, claramente enquanto  0,80 > 0,20 a cozinha oferece um lucro marginal maior que o paisagismo.

Portanto, investir o orçamento na cozinha continua sendo a melhor decisão.

Mas imagine que o retorno marginal da cozinha caia para 0,20 e aí as duas alternativas são igualmente atraentes.

A partir desse ponto, existe mais de uma solução ótima porque se o retorno da cozinha cair abaixo de 0,20 o paisagismo passa a ser a alternativa mais lucrativa.

Portanto:

A decisão “investir tudo na cozinha” é robusta enquanto o retorno marginal da cozinha permanecer acima do retorno marginal do paisagismo.

Uma solução ótima sem análise de sensibilidade é uma decisão no escuro. Um exemplo simples, mas a realidade é muito mais complexa.

 

Preço-sombra: quanto vale conseguir mais orçamento?

Além de testar a robustez dos coeficientes, a Análise de Sensibilidade responde a outra pergunta clássica da gestão:

“E se eu conseguir mais R$ 10 mil de orçamento? Quanto isso vale para o negócio?”

A resposta está no preço-sombra (shadow price) da restrição orçamentária.

No nosso exemplo, enquanto a cozinha continuar sendo a alternativa marginalmente mais lucrativa, cada R$ 1 mil adicional de orçamento permite aumentar o lucro ótimo em aproximadamente R$ 0,80 mil, ou seja, R$ 800.

Portanto, o preço-sombra da restrição orçamentária é 0,80. Isso significa que, se o orçamento aumentar em R$ 10 mil, o lucro ótimo poderá aumentar aproximadamente: 10 x  R$800 = R$8.000 desde que esse aumento esteja dentro da faixa de validade do preço-sombra.

Essa informação tem uma interpretação econômica muito importante.

Imagine que a empresa tenha a possibilidade de obter R$ 10 mil adicionais para a reforma. Se o custo efetivo para conseguir esse dinheiro — juros, custo de capital e outros custos associados — for inferior ao benefício marginal indicado pelo preço-sombra, aumentar o orçamento pode ser economicamente interessante.

Em outras palavras:

O preço-sombra transforma uma restrição matemática em uma informação econômica.

Ele permite ao gestor perguntar não apenas:

“Qual é a melhor utilização do orçamento que tenho?”

mas também:

“Quanto vale para minha empresa conseguir um pouco mais desse recurso?”

É justamente essa interpretação que torna a Análise de Sensibilidade tão útil na prática.

  

No mundo real

O exemplo da cozinha e do paisagismo é deliberadamente simples.

Ele serve para mostrar um conceito fundamental da Programação Linear: quando existem alternativas concorrentes e recursos limitados, a matemática pode determinar como alocar esses recursos para obter o melhor resultado possível.

Aqui, temos apenas duas alternativas:

  • investir na cozinha;

  • investir no paisagismo.

E apenas uma restrição principal:

  • orçamento máximo de R$ 275 mil.

Na prática, porém, um incorporador imobiliário pode ter dezenas de possibilidades de reforma.

Além da cozinha e do paisagismo, pode ser necessário decidir quanto investir em banheiros, pisos, pintura e muitos outros.

E o problema não termina aí.

Existem também diversas restrições simultâneas além do orçamento máximo disponível. Prazo máximo para concluir a reforma, disponibilidade de mão de obra, etc.


Imagine, por exemplo, que a reforma tenha 30 atividades diferentes, cada uma com um custo, um prazo e um retorno esperado diferente.

Agora temos dezenas de variáveis de decisão e muitas restrições simultâneas.

O problema deixa de ser:

“Cozinha ou paisagismo?”

e passa a ser:

“Qual combinação entre dezenas de investimentos maximiza o valor esperado do imóvel, respeitando simultaneamente todas as restrições?”

É nesse tipo de situação que a Programação Linear mostra sua força.

É por isso que, no mundo empresarial, utilizam-se ferramentas especializadas de otimização, como o Solver do Excel, o Gurobi, o CPLEX e outros solvers de Programação Linear e Otimização Matemática.

Essas ferramentas recebem o modelo matemático e utilizam algoritmos de otimização para encontrar a solução ótima.

Mas existe uma distinção fundamental:

O software resolve o modelo. Ele não cria o modelo corretamente para você.

É preciso decidir quais são as variáveis, qual é a função objetivo, quais são as restrições e quais valores devem ser utilizados nos coeficientes.

Um solver pode encontrar rapidamente a solução ótima de um modelo matemático mal formulado.

E nesse caso teremos uma resposta matematicamente correta para um problema que talvez esteja errado.

É justamente por isso que compreender a matemática da otimização continua sendo importante mesmo quando utilizamos ferramentas sofisticadas.

O desafio não é apenas encontrar a solução. É formular corretamente o problema que queremos resolver.

Quer aprender a extrair essas informações e aplicá-las na prática? O Capítulo 2 do Volume II – Otimização – Matemática para o Século XXI, mostra o caminho, com exemplos em Python e interpretação de negócio.


 
 
 

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